Read the original interview in english here. | Leia a entrevista original em inglês aqui.

Aquele seria o dia mais especial dos 13 anos de vida da menina paquistanesa. Ela acordou cedo (na verdade, mal dormiu), sentindo um frio na barriga. Com um capricho maior do que o normal, cobriu os cabelos com seu hijab mais bonito, enquanto sentia o aroma que vinha da cozinha. A sua mãe, melhor do que ninguém, sabia o quanto aquele dia seria importante para a menina e por isso preparou seu desjejum favorito: parathas quentinhas com ovos mexidos e leite. Mas apesar de adorar aquelas delícias, naquele dia ela comeu sem nem perceber direito o sabor. Sua cabeça estava em outro lugar.

Enquanto caminhava ao lado da mãe, ela continuava calada, pensando, tentando imaginar como seria recebida, procurando rememorar o que precisava dizer. Ela não podia esquecer nada; era um dia muito importante. Quando chegaram na escola, a mãe lhe beijou com carinho na testa e lhe desejou boa sorte. A menina então procurou sua sala, ficava no final do corredor. Andou até lá, com os olhos no chão, sem perceber a alegre algazarra que as demais crianças ainda faziam antes de começar a aula.

Quando entrou, todos os alunos já estavam em seus lugares, esperando em silêncio. A menina fechou a porta, se dirigiu para a frente da sala e disse:

Bom dia. Meu nome é Khadija Murtaza. Sou sua professora de matemática.


 

Eu só conheço Khadija virtualmente, pela web. Ambos fazíamos parte de um grupo formado no Facebook para que alunos do mundo todo pudessem se conhecer e discutir sobre um MOOC sobre educação que o Commonwealth Education Trust estava oferecendo através do Coursera.

Sua apresentação ao grupo logo chamou a minha atenção, como a de todos os demais colegas. Khadija se descrevia como uma jovem paquistanesa de 18 anos de idade, que há 5 anos havia começado a lecionar na escola da sua mãe, com o objetivo de ajudar a estabilizar o Paquistão através da educação.

Sim, isso mesmo, Khadija é professora de matemática e biologia desde os 13 anos de idade! Mas não é apenas a precocidade dela que impressiona. A menina-professora transpira uma paixão pela educação e pelo seu país, uma vontade de continuar aprendendo e um comprometimento com o seu trabalho que são raros em qualquer idade. Apenas para que se tenha uma ideia, a entrevista que você vai ler abaixo (feita por troca de mensagens via Internet) só começou vinte dias após o primeiro contato, pois ela estava ocupada, organizando a Feira de Ciências da escola e um concurso interescolar sobre Direitos Humanos.

Então, conheça a professora Syeda Khadija Murtaza.

Khadija Murtaza

 

Rescola: Olá, Khadija. Você pode começar se apresentando? Qual é o seu nome completo e a sua idade?

Khadija Murtaza: Meu nome de batismo é Syeda Khadija Murtaza. Syed é o meu nome de família, é uma família muito respeitada em toda a comunidade muçulmana. Mas em algumas ocasiões eu também uso a versão turca do meu nome, Hatiçe Binte Murtüza, porque é assim que meus professores turcos me chamavam. Eu completei 18 anos em maio de 2013.


 

Rescola: Quase todos os nossos colegas no Coursera eram professores experientes e ainda assim ficaram muito impressionados quando você se apresentou. Acredito que nenhum deles já havia conhecido uma colega professora que começou a lecionar tão cedo, aos 13 anos! Como foi que você começou a dar aulas?

Khadija Murtaza: Minha mãe emigrou das Filipinas para o Paquistão. Hoje vivemos em Khairpur Mir’s, um distrito de pouco mais de 100 mil habitantes, na província de Sindh, sul do Paquistão, próximo à fronteira com a Índia. Talvez devido à forma com que fui criada, sempre foi natural para mim ajudar minha mãe. Então, quando ela abriu a escola, mesmo tendo 13 anos resolvi começar a dar aulas.

Faiz Mahal - Khairpur Mir's
Faiz Mahal, em Khairpur Mir’s


Khadija Murtaza

Rescola: Mas como você se preparou para isso? E como foi dar a primeira aula?

Khadija Murtaza: Antes de começar a lecionar, eu fui enviada para ser treinada como professora montessoriana pelo Conselho Montessori do Paquistão. Em seguida, eu participei de workshops conduzidos pela Oxford University Press, aqui no Paquistão. Então, finalmente e comecei a lecionar aos 13 anos. Primeiro comecei na primeira série e agora ensino biologia, física e química para alunos do ensino médio. E Alhamdulillah (graças ao Senhor) estou me saindo muito bem, com muitos dos meus alunos obtendo as maiores notas em nosso distrito. Ainda assim, para falar a verdade, dar a primeira aula foi realmente assustador, até porque eu não sou muito alta e então cada um dos meus alunos parecia ser maior do que eu.


 

Rescola: Como é a educação na sua comunidade? Como é a escola em que você leciona e como são as demais escolas?

Khadija Murtaza: Nossa escola se chama Mikaza Royal Academy. Hoje nós temos em torno de 400 alunos. São 20 a 25 em cada classe, da pré-escola ao ensino médio. Nós procuramos oferecer uma educação de ótima qualidade, mas infelizmente nem todas as escolas da região tem essa preocupação. A maioria delas é um negócio, uma forma de ganhar dinheiro. Na verdade, ter uma escola aqui é a forma mais fácil de ganhar dinheiro. Então, tendo isso em vista, você pode imaginar quais são as condições das escolas por aqui.


 

Rescola: Como assim? Como é a estrutura financeira e legal das escolas aí?

Khadija Murtaza: Em nossa cidade, é incrivelmente fácil registrar uma escola, subornando os oficiais. Uma vez que a escola é registrada dessa forma, não recebe nenhum controle ou fiscalização financeira, enquanto as escolas registradas legalmente pagam altos impostos e precisam enfrentar diversos problemas burocráticos. Ainda assim, na nossa escola, em cada série há entre 2 a 5 alunos que recebem bolsa integral porque pertencem a famílias muito pobres.


 

Rescola: A educação é exclusivamente privada?

Khadija Murtaza: Há escolas públicas e privadas aqui. Mas o orçamento do governo com educação fica abaixo de 1%, por isso a qualidade da educação pública é realmente ruim. Os livros distribuídos pelo governo nas escolas públicas são tão velhos que meus professores estudaram neles quando eram crianças.


 

Rescola: Anteriormente, você disse que recebeu treinamento como professora montessoriana. A sua escola utiliza o método Montessori?

Khadija Murtaza: Sim, aplicamos a metodologia Montessori não só na pré-escola, como também nos níveis seguintes, até o ensino médio. Entretanto, a mentalidade da região em que vivemos não é assim tão avançada e precisamos enfrentar a oposição de muitos pais, pois nenhuma outra escola daqui ensina partindo do concreto ao abstrato. Metodologias de ensino conceitual são utilizadas apenas em grandes cidades, como Karachi, Lahore e Islamabad.


 

Rescola: Você pode falar mais sobre essa forma de ensinar?

Khadija Murtaza: Bem, nós ensinamos de forma a permitir que os estudantes identifiquem padrões, assim, se os fatos acontecem de alguma outra forma, eles podem reconhecê-los. Por exemplo, nós não pedimos para que eles apenas decorem definições científicas, pedimos também que eles encontrem os lugares ou ocupações em que a ciência toma parte. Talvez seja comum ensinar assim em outras partes do mundo, mas aqui não é muito normal.

Khadija Murtaza


 

Rescola: Você lembra de alguma história particularmente interessante ou engraçada que ocorreu nas suas aulas?

Khadija Murtaza: Bem, há muitas é claro. Do ponto de vista dos meus alunos, eles costumam gostar das aulas mesmo quando eu estou fazendo avaliações. O motivo disso é que eu as transformei em um jogo online no estilo Quem Quer Ser um Milionário? e isso faz com que eles realmente queiram estudar para o teste. Além disso, quem obtém as melhores notas se torna o encarregado da disciplina naquela semana. Já para mim, o dia mais memorável foi quando eu e meus alunos dissecamos baratas para estudar seus órgãos internos. E depois de dissecá-las, as sepultamos seguindo todos os rituais.


 

Rescola: (Risos) Muito bom. Tenho certeza de que isso foi memorável para eles também.

Khadija Murtaza: Sim, foi muito interessante. Foi a primeira cirurgia da vida deles e certamente eles se lembrarão para sempre.


 

Rescola: Você acha que ter uma idade tão próxima dos seus alunos é uma vantagem ou uma desvantagem?

Khadija Murtaza: Bem, é um pouco de cada. É uma vantagem porque eu posso “calçar seus sapatos” e pensar como eu gostaria de aprender e como queria estar sendo ensinada. Mas às vezes é uma desvantagem porque há momentos em que a camaradagem cresce tanto que nós acabamos nos distraindo e vira uma perda de tempo. De qualquer forma, mesmo nesses momentos acabamos aprendendo muito uns com os outros.


 

Rescola: E quais são seus objetivos para o futuro?

Khadija Murtaza: Meus objetivos são apenas continuar com esses esforços, meus e de minha mãe. Eu apenas quero ver um futuro brilhante para o Paquistão. Eu quero que as pessoas ao redor do mundo vejam o Paquistão como ele realmente é. Você sabe, o Paquistão é visto sempre como um país de terroristas, mas o que as pessoas ignoram é que o Paquistão é na verdade o mais afetado pelo terrorismo. A espinha dorsal da economia do Paquistão desabou por causa disso. Eu nasci paquistanesa e tudo o que sou eu devo ao fato do Paquistão ter me dado essas oportunidades.

Alunas da Khadija na feira de ciências da escola
Alunas da Khadija na Feira de Ciências da escola.


 

Rescola: Khadija, muitíssimo obrigado pela nossa conversa. Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa.

Khadija Murtaza: Sim, apenas uma coisa, se você não se importar. É a verdadeira razão de eu ter começado a lecionar.


 

Rescola: Claro, acrescente o que desejar.

Khadija Murtaza: Na verdade, eu queria ter entrado para o exército. Mas então minha mãe me disse que a paixão que ardia em mim poderia servir minha nação muito melhor se eu me tornasse parte da educação, porque nós estamos muito atrasados nesse aspecto. Então, eu dei o primeiro passo e comecei a ensinar estudantes pobres. Mas não estava satisfeita comigo mesma, então me inscrevi no treinamento do Conselho Montessori do Paquistão e fiz os workshops da Oxford University Press e webinars para meu desenvolvimento profissional. Acredito que com isso eu me aprimorei muito como professora, mas continuo querendo aprender mais para poder dar uma contribuição cada vez maior para o desenvolvimento do Paquistão.

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Renato Carvalho

Designer, Mestre em Design de Tecnologias Educacionais pela Universidade de Toronto. Trabalha por uma Educação focada no estímulo à criatividade, colaboração, autonomia, iniciativa e pensamento crítico.

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