Texto publicado originalmente no site Tribuna Científica.

Bem, eu sei que muitos já vão dar uma resposta pronta, possivelmente ligada a algo afetivo ou espiritual. Respeito demais (mesmo!). Mas vamos tentar, pelo menos agora, amarrar nossa pergunta a questões, digamos, mais “terrenas”.

Provavelmente, você está lendo esse texto em um computador ou quem sabe no seu celular ou tablet. Olhe bem para os componentes do seu aparelho. O plástico presente na maior parte dele não é matéria prima encontrada na natureza. Ele é desenvolvido a partir de décadas de pesquisa em materiais de resistência, durabilidade e baixo custo. A tela finíssima é graças ao advento e consolidação da nanotecnologia, ciência recente quando comparada aos códigos binários que permitem respostas eletrônicas aos seus comandos de digitação. Se você estiver num ambiente urbano, olhe tudo em sua volta e tenha a certeza de que cada item que você está vendo, desde a tinta da parede até os freios de um automóvel, só está aí porque milhares de cientistas investiram muito tempo, muito cérebro e muito dinheiro nisso. Se você por um acaso estivesse no meio da floresta agora, saiba que novas espécies são descobertas praticamente todos os dias e que as relações ecológicas entre seres vivos e o meio estão se revelando cada vez mais complexas, graças a pesquisadores que estão nos ajudando a como medir nossos impactos no planeta e a como resolvê-los. O que você comeu hoje passou por testes químicos e por décadas de melhoramento genético. A economia de uma nação é baseada em estatística avançada. O remédio que você tomou quando ficou doente não foi uma descoberta acidental. Uma cirurgia de sucesso não foi alcançada naquele momento, ela nasceu em dezenas de laboratórios bem antes disso. Em resumo, você não teria sequer chegado até aqui se não fosse pela Ciência.

Talvez, eu não tenha falado nenhuma novidade para você. Mas será que damos o real valor para esses processos? E eu ainda o convido a um seguinte questionamento. Pense mentalmente no nome de cinco cientistas… Agora pense mentalmente no nome de cinco cientistas brasileiros.

Aposto duas coisas agora. No primeiro desafio, sua mente visitou cientistas estrangeiros mais velhos como Einstein, Hawking, Darwin, Marie Curie, não é isso? Já o segundo eu arrisco dizer que foi bem mais difícil. Carlos Chagas, talvez?

Pois bem, vamos fazer um resumo agora da relação do brasileiro com a Ciência.

  • Ele acha que Ciência é só uma disciplina que se aprende na escola;
  • Ele não percebe que praticamente tudo o que ele consome advém de processos científicos complexos;
  • A imagem do cientista é tida por ele como um profissional que “descobre” coisas e não alguém que desenvolve coisas;
  • Para ele, os modelos de cientistas são estrangeiros e com pesquisas desenvolvidas no século passado, mesmo que ele não saiba ao certo o que esses cientistas de fato fizeram.

Tudo bem, mas qual o problema nisso? Simples. Uma sociedade que não entende Ciência, não a valoriza. Uma sociedade que não a valoriza não a consome. E uma sociedade que não a consome não a fomenta. E o que ganha uma sociedade ao fomentar Ciência? Vamos aos exemplos práticos. O Japão resolveu investir maciçamente em Ciência após a II Guerra, que quase o destruiu por completo. Hoje, o país conta com quase 700.000 cientistas dentre os seus 127 milhões de habitantes. Com orçamento anual de cerca de 120 bilhões de dólares, a nação é líder mundial na produção de pesquisa fundamental e detém um PIB de quase 5 trilhões de dólares, cuja maior parte é fruto de insumos tecnológicos. Israel também em seu PIB de 290 bilhões fortemente atrelado à produção científico-tecnológica. Apesar de ter crescido bastante no número de publicações, o Brasil ocupa o 40º lugar em termos de relevância científica e a produção econômica advinda de nossas pesquisas é pífia, mesmo com PIB de US$ 2,2 trilhões. Mesmo se considerarmos o PIB per capita brasileiro (cerca de US$ 11.000), o Brasil ainda está atrás da Índia na produção científica, país que detém aproximadamente US$ 1.000 per capita, valor 10 vezes menor.

Ou seja, Ciência é um dos principais fatores de evolução de um país. Em termos políticos, sociais, educacionais e principalmente econômicos. Sabendo dessa necessidade, como mudar esse quadro de desvalorização no Brasil? A resposta é teoricamente óbvia, mas de aplicação prática complicada. Educação, claro. Mas se a educação formal não tem cumprido o papel de despertar a predileção para que esses jovens busquem na informal um maior aporte de conhecimento científico, a solução por enquanto é mudar a educação informal. E a melhor maneira é através da Internet e de recursos audiovisuais.

Beakman's WorldPodemos usar exemplos que já deram certo inclusive. Lembra do Mundo de Beakman, aquele cientista maluco que ao lado de uma garota e um rato gigante desvendavam vários experimentos? Ou quem sabe do Chocolate Surpresa, que vinha acompanhado de cartões repletos de informações incríveis? Ou ainda do Tíbio e Perônio, do Castelo Ratimbum? Se você lembrou desses programas com um sorriso no rosto, pensa que iniciativas como essa podem voltar a dar certo.

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Há dezenas de canais virtuais como o Nerdologia, Canal do Pirula, Manual do Mundo, Física Marginal, que já estão cumprindo um papel fundamental para essa mudança. Agora, nós também resolvemos arriscar com o Zoa. Vamos ver no que isso vai dar. De qualquer forma, é um bom (re)começo. E que seja o início de um Brasil mais científico e, sobretudo, mais cientista.


 

Zoa

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Nerdologia

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Canal do Pirula

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Manual do Mundo

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Física Marginal

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Hugo Fernandes-Ferreira


One thought on “O que pode ser mais importante que Ciência?

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